
Apesar de representarem uma parcela crescente da força de trabalho, as mulheres ocupam apenas 17,5% das cadeiras no Congresso Nacional e comandam a prefeitura de apenas duas capitais brasileiras. No setor privado, elas representam 27% dos quadros executivos nas cem maiores empresas do país, conforme dados do Instituto Ethos.
A luta pela igualdade de gênero vai além da ascensão profissional. Mulheres que chegam a altos cargos enfrentam barreiras relacionadas com a permanência nessas funções e o poder efetivo nas decisões. Carine Roos, fundadora da consultoria Somos Newa, especializada em diversidade e inclusão, destaca a importância de implementar políticas de permanência para mulheres em cargos executivos, principalmente aquelas com filhos. Segundo ela, a criação de um ambiente de trabalho mais inclusivo, longe de espaços predominantemente masculinos, é essencial para evitar a "expulsão" dessas líderes. "Não basta ter uma mulher diretora; se o ambiente não for inclusivo, ela pode acabar saindo", afirma.
Esses desafios se refletem também no universo político. Para as mulheres que ocupam cargos públicos, como deputadas, senadoras e prefeitas, o ambiente ainda é predominantemente masculino e, muitas vezes, desenhado para atender às necessidades dos homens.
A professora da University College London, Malu Gatto, coautora do livro "Candidatas", comenta que essas mulheres enfrentam dificuldades para exercer seu poder em estruturas que não são apenas masculinas, mas também criadas para os homens. Além disso, ela destaca processos formais, como a falta de regras claras sobre licença-maternidade, e informais, como a exclusão das mulheres de discussões importantes que ocorrem fora do ambiente de trabalho.
Pesquisas também apontam para a vulnerabilidade das mulheres em posições de liderança a violências de gênero. Um estudo publicado pela revista Dados da UERJ revelou que senadoras e líderes de bancada são mais frequentemente interrompidas do que seus colegas homens, inclusive por seus próprios correligionários.
No âmbito internacional, um levantamento do Massachusetts Institute of Technology identificou uma correlação entre assédio sexual e mulheres em cargos de gestão, com mulheres em posições de liderança sendo até 100% mais vulneráveis ao assédio sexual no trabalho do que aquelas em cargos inferiores.
A disparidade é ainda mais acentuada para mulheres negras em cargos de liderança. Dados do Instituto Ethos mostram que elas representam apenas 3,4% dos quadros executivos das maiores empresas brasileiras. Andreia Coutinho Louback, fundadora do Centro Brasileiro de Justiça Climática, compartilha sua experiência como mulher negra em uma posição de liderança, destacando que a ideia de meritocracia mascara as barreiras estruturais que dificultam a ascensão de outras mulheres negras. "Não é só força de vontade", diz. "Eu tive uma tomada de decisão que envolvia recursos e me possibilitou dar esse salto."
Esse "salto" trouxe novos desafios, como a falta de representatividade em espaços políticos e a necessidade de lidar com a resistência de algumas pessoas à sua autoridade. Andreia relata ter enfrentado situações em que sua autoridade foi desrespeitada, questionando se as mesmas atitudes seriam tomadas caso ela fosse uma líder branca.
Além disso, ela aborda a dificuldade de priorizar a saúde das mulheres em cargos de liderança. Recentemente, Andreia precisou fazer uma operação de endometriose que vinha adiando por anos. "Era como se eu não pudesse ficar 20 dias em repouso", comenta. "Existe um medo legítimo de retroceder, mas a gente precisa poder cuidar da saúde."
A maternidade também é um desafio adicional para mulheres em cargos executivos. Dados do governo federal de 2023 indicam que 38% das mulheres em cargos de liderança têm filhos menores de idade, enquanto entre os homens esse número é de 66%. Carine Roos destaca que a dupla jornada de trabalho e cuidados com os filhos ainda recai majoritariamente sobre as mulheres, o que torna imprescindível a criação de políticas que permitam a permanência das mulheres nesses cargos, como a flexibilização de horários e a possibilidade de home office.
O desafio, para Roos, não está apenas em garantir a representatividade feminina nos cargos de liderança, mas também em criar condições para que as mulheres possam permanecer nessas posições a longo prazo. "Não podemos pensar apenas em fazer as mulheres ocupar esses espaços, mas também em como elas conseguem se manter neles", conclui.