
Samuel Beckett revive neste sábado, 5, no palco da Escola de Música e Artes Cênicas da UFG. O célebre dramaturgo irlandês reaparece nos tablados da universidade pelas mãos do grupo Máskara, durante o 1° Congresso de Performances Culturais, a partir das 18h15.
O evento será realizado por estudantes e egressos da pós-graduação em Performances Culturais. Além do poema-drama “Companhia”, será encenado, às 20h, a peça “Barbas”, da Cia de Teatro Nu Escuro, que promete fusão de lirismo, reflexão e potência cênica.
Dirigida pelo dramaturgo Robson Corrêa Camargo, a montagem beckettiana produz uma atmosfera cênica imersiva. A luz, o som e a presença em cena dos atores Ronei Vieira, Mariana Tagliari e Ilmara Damasceno levam ao público certa experiência sensorial.
“Companhia” estreou em 2009, no IV Festival Beckett em Buenos Aires, e desde então passou por São Paulo, Minas Gerais, México e Polônia. Em 2018, foi apresentada uma versão bilíngue português-polônes em Gdansk. Há três anos, o espetáculo retornou à capital argentina, consolidando a abordagem singular feita pelo Máskara do teatro beckettiano.

Na apresentação, os espectadores são posicionados em um círculo de folhas secas. Velas aromáticas são acesas, mas vão se apagando ao longo de “Companhia”. Jogo de luzes e sombras acentuam a presença dos atores, guiados pela trilha sonora de Elsa Justel. Ou seja, aqui, o que se vê não é propriamente uma interpretação tradicional do texto de Beckett.
Pelo contrário, o Máskara busca novos sentidos a partir de referências culturais e estéticas cerratenses. O autor irlandês, nobelizado em 1969, fala em “Companhia” de suas vivências entre o mar gelado da Irlanda, o céu enevoado e as caminhadas solitárias nas colinas. Para a pesquisadora Célia Berrettini, trata-se do texto mais autobiográfico do dramaturgo.
“Você terminará como você é agora. E em outro escuro ou no mesmo outro imaginado tudo por companhia”, escreve Beckett, que o traduziu ao francês e depois o adaptou ao inglês. Escrito no idioma pátrio, o conto começou a ser criado em maio de 1977. Tem, ao todo, 59 parágrafos, nos quais faz referência implícita ao círculo quase completo de um relógio.
Em 15 parágrafos, o autor rememora uma cena pretérita. É o passado de quem está de costas no escuro. Uma frase expressa: “uma voz bem para alguém no escuro. Imagine”. Há uma outra pessoa. Portanto, o verbo é conjugado na segunda pessoa, isto é, fala-se algo a alguém.
Você terminará como você é agora. E em outro escuro ou no mesmo outro imaginado tudo por companhia” Samuel Beckett, autor
Idealizada por Corrêa Camargo, a encenação produzida pelo Núcleo Máskara estabelece diálogo entre essas vozes beckettianas. “Personas que olham, sentem e buscam o tempo que passa”, define o diretor, a quem Beckett apresenta “o sem sentido do teatro para uma busca de sentido, com as armas desafiadoras do fenômeno dramático”, conforme diz em estudo.
A partir de Vieira, Tagliari e Damasceno, as memórias retratadas em “Companhia” se convertem nalguns banhos na Chapada dos Veadeiros, fogueiras de julho e centro comercial de Goiânia. Dedicado a pesquisas teatrais transdisciplinares, o Núcleo Máskara dialoga com a materialidade dos corpos e o tempo presente, a experiência do vazio e da solitude.
Assim, afirma Corrêa Camargo, a peça ressoa no contexto brasileiro. “Mais do que um espetáculo, ‘Companhia’ é uma vivência sensorial e subjetiva, que permite ao espectador criar suas próprias conexões e significados a partir da obra”, reflete. “Propõe uma relação diferenciada entre público e cena, criando um ambiente em que a percepção se aguça.”
De Dublin a Paris
Nascido em abril de 1906, em Foxrock, subúrbio de Dublin, Samuel Barclay Beckett cresceu numa família protestante. Jamais passou por dificuldades financeiras na infância. A mãe cantava hinos religiosos, enquanto o pai passeava pelas colinas da capital irlandesa.
Beckett, por sua vez, considerava o protestantismo uma chatice. Amigo do escritor James Joyce, mudou-se para Paris em 1928, mas retornou à cidade natal dois anos depois. Começou a dar aulas de francês, deprimiu-se e foi morar em Londres, onde escreveu o livro “More Pricks”, em 1935. Pela primeira vez, sentiria a indiferença da crítica sobre seu trabalho.

Nesse mesmo ano, publicou sua primeira novela, “Murphy”, editada apenas três anos mais tarde. A partir de 1937, na iminência do mundo colapsar, estabeleceu-se em Paris. Passou por experiência traumática na capital francesa: um mendigo o apunhalou e, ao receber alta hospitalar, foi questioná-lo sobre o motivo da agressão. “Não sei”, disse-lhe o homem.
A Segunda Guerra o forçou a retornar ao país natal. “Prefiro a França em guerra à Irlanda em paz”, declarou, ao voltar a Paris ainda sob ocupação nazista. Na cidade luz, lutou ao lado da Resistência, todavia a Gestapo o localizou. Após o cessar-fogo, escreveu sua peça mais famosa, “Esperando Godot”, que estreou em 1952. Beckett morreu em 1989, aos 83 anos, em Paris.