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Artes Cênicas

Samuel Beckett revive no próximo sábado, 5, em congresso na UFG

Célebre dramaturgo, Beckett tem peça encenada neste fim de semana na Escola de Música e Artes Cênicas (Emac), a partir das 18h15

Espetáculo se baseia no drama-poema "Companhia" - Foto: André Conrado/ Divulgação Espetáculo se baseia no drama-poema "Companhia" - Foto: André Conrado/ Divulgação

Samuel Beckett revive neste sábado, 5, no palco da Escola de Música e Artes Cênicas da UFG. O célebre dramaturgo irlandês reaparece nos tablados da universidade pelas mãos do grupo Máskara, durante o 1° Congresso de Performances Culturais, a partir das 18h15.

O evento será realizado por estudantes e egressos da pós-graduação em Performances Culturais. Além do poema-drama “Companhia”, será encenado, às 20h, a peça “Barbas”, da Cia de Teatro Nu Escuro, que promete fusão de lirismo, reflexão e potência cênica.

Dirigida pelo dramaturgo Robson Corrêa Camargo, a montagem beckettiana produz uma atmosfera cênica imersiva. A luz, o som e a presença em cena dos atores Ronei Vieira, Mariana Tagliari e Ilmara Damasceno levam ao público certa experiência sensorial.

“Companhia” estreou em 2009, no IV Festival Beckett em Buenos Aires, e desde então passou por São Paulo, Minas Gerais, México e Polônia. Em 2018, foi apresentada uma versão bilíngue português-polônes em Gdansk. Há três anos, o espetáculo retornou à capital argentina, consolidando a abordagem singular feita pelo Máskara do teatro beckettiano.


		Samuel Beckett revive no próximo sábado, 5, em congresso na UFG
Durante a apresentação, espectadores são posicionados em um círculo de folhas secas. Foto: André Conrado/ Divulgação


Na apresentação, os espectadores são posicionados em um círculo de folhas secas. Velas aromáticas são acesas, mas vão se apagando ao longo de “Companhia”. Jogo de luzes e sombras acentuam a presença dos atores, guiados pela trilha sonora de Elsa Justel. Ou seja, aqui, o que se vê não é propriamente uma interpretação tradicional do texto de Beckett.

Pelo contrário, o Máskara busca novos sentidos a partir de referências culturais e estéticas cerratenses. O autor irlandês, nobelizado em 1969, fala em “Companhia” de suas vivências entre o mar gelado da Irlanda, o céu enevoado e as caminhadas solitárias nas colinas. Para a pesquisadora Célia Berrettini, trata-se do texto mais autobiográfico do dramaturgo.

“Você terminará como você é agora. E em outro escuro ou no mesmo outro imaginado tudo por companhia”, escreve Beckett, que o traduziu ao francês e depois o adaptou ao inglês. Escrito no idioma pátrio, o conto começou a ser criado em maio de 1977. Tem, ao todo, 59 parágrafos, nos quais faz referência implícita ao círculo quase completo de um relógio.

Em 15 parágrafos, o autor rememora uma cena pretérita. É o passado de quem está de costas no escuro. Uma frase expressa: “uma voz bem para alguém no escuro. Imagine”. Há uma outra pessoa. Portanto, o verbo é conjugado na segunda pessoa, isto é, fala-se algo a alguém.

Você terminará como você é agora. E em outro escuro ou no mesmo outro imaginado tudo por companhia” Samuel Beckett, autor

Idealizada por Corrêa Camargo, a encenação produzida pelo Núcleo Máskara estabelece diálogo entre essas vozes beckettianas. “Personas que olham, sentem e buscam o tempo que passa”, define o diretor, a quem Beckett apresenta “o sem sentido do teatro para uma busca de sentido, com as armas desafiadoras do fenômeno dramático”, conforme diz em estudo.

A partir de Vieira, Tagliari e Damasceno, as memórias retratadas em “Companhia” se convertem nalguns banhos na Chapada dos Veadeiros, fogueiras de julho e centro comercial de Goiânia. Dedicado a pesquisas teatrais transdisciplinares, o Núcleo Máskara dialoga com a materialidade dos corpos e o tempo presente, a experiência do vazio e da solitude.

Assim, afirma Corrêa Camargo, a peça ressoa no contexto brasileiro. “Mais do que um espetáculo, ‘Companhia’ é uma vivência sensorial e subjetiva, que permite ao espectador criar suas próprias conexões e significados a partir da obra”, reflete. “Propõe uma relação diferenciada entre público e cena, criando um ambiente em que a percepção se aguça.”

De Dublin a Paris

Nascido em abril de 1906, em Foxrock, subúrbio de Dublin, Samuel Barclay Beckett cresceu numa família protestante. Jamais passou por dificuldades financeiras na infância. A mãe cantava hinos religiosos, enquanto o pai passeava pelas colinas da capital irlandesa.

Beckett, por sua vez, considerava o protestantismo uma chatice. Amigo do escritor James Joyce, mudou-se para Paris em 1928, mas retornou à cidade natal dois anos depois. Começou a dar aulas de francês, deprimiu-se e foi morar em Londres, onde escreveu o livro “More Pricks”, em 1935. Pela primeira vez, sentiria a indiferença da crítica sobre seu trabalho.


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Beckett inseriu nome na história da literatura produzida no século 20. Foto: Bibliothèque nationale de France/Domínio Público

Nesse mesmo ano, publicou sua primeira novela, “Murphy”, editada apenas três anos mais tarde. A partir de 1937, na iminência do mundo colapsar, estabeleceu-se em Paris. Passou por experiência traumática na capital francesa: um mendigo o apunhalou e, ao receber alta hospitalar, foi questioná-lo sobre o motivo da agressão. “Não sei”, disse-lhe o homem.

A Segunda Guerra o forçou a retornar ao país natal. “Prefiro a França em guerra à Irlanda em paz”, declarou, ao voltar a Paris ainda sob ocupação nazista. Na cidade luz, lutou ao lado da Resistência, todavia a Gestapo o localizou. Após o cessar-fogo, escreveu sua peça mais famosa, “Esperando Godot”, que estreou em 1952. Beckett morreu em 1989, aos 83 anos, em Paris.

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