
A atitude da atriz Cláudia Raia, revelada durante sua entrevista em uma TV portuguesa, trouxe polêmica e muito burburinho, dividindo as opiniões.
Cláudia Raia afirmou ter dado um vibrador de presente para a filha quando esta completou 12 anos e disse à mesma: “Vá se investigar, vá descobrir o que você gosta”

Numa entrevista com Drª Aline Sardinha conversamos sobre esse e muitos outros temas em sexualidade que são um verdadeiro desafio para os pais e educadores. Aline é psicóloga, sexóloga e criadora da Terapia Cognitiva Sexual. É responsável pela formação de vários profissionais em sexologia não só no Brasil, mas no mundo. Atualmente ela mora em Cingapura.

1- Drª Aline existe uma idade certa para começarmos a conversar com os nossos filhos sobre sexualidade?
Falar sobre sexualidade é falar de muitos conceitos para além do sexo em si. Temos que começar a falar com nossos filhos sobre as sensações do corpo, sobre o que é uma cócega, o que é bom ou ruim, quais são os nomes das partes íntimas. Dar a eles noções como pudor, relacionamento social, normas sociais, o que pode e o que não pode. Importante trazer o conceito de amor, de namoro, de casamento, de família e de quem ocupa que lugar dentro da estrutura familiar e da estrutura social. Tudo isso vamos falar com a criança.
E na puberdade começamos a falar sim da função sexual, tanto das questões biológicas, que envolvem as mudanças no corpo, os caracteres sexuais secundários, menarca, como também as questões que envolvem o relacionamento social, o primeiro namoro, as primeiras percepções de interesse pelo outro ali no final da infância, o que pode e o que não pode. Vamos falar de um toque que não é mais só sensação, mas um toque de prazer. Vamos falar do aparecimento do desejo, das primeiras ereções, da polução noturna. Precisamos sim falar de sexo na puberdade, de contracepção, de práticas sexuais seguras, de consentimento, regras familiares e sociais, que tipo de sexo se pode fazer e em que momento aquela família acha adequado. Tudo isso é sexualidade e devemos falar de sexualidade desde sempre.
2- Devemos sempre esperar pela curiosidade dos nossos filhos sobre o assunto ou tem alguma forma de promovermos uma educação sexual saudável mais ativamente?
Antigamente a gente tendia a acreditar que devíamos esperar as crianças perguntarem. Isso pode ser possível, mas para que as crianças venham perguntar sobre sexualidade para os seus pais, a gente precisa construir ativamente um espaço de permissão para que a criança se sinta à vontade para falar das próprias emoções, das próprias vontades, não se sentindo reprimida ao longo da infância com relação a esse tema. Que ela perceba que esse tema é um tema bem vindo e assim prefira conversar com os pais ao invés de perguntar para o coleguinha ou um estranho na internet. Essa permissão nem sempre precisa ser dada através de uma conversa, mas pode vir em forma de uma atitude como trazer um livro pra casa, ou dar uma camisinha para esse adolescente ou até mesmo um objeto como um vibrador. Os pais podem também levar a um profissional de saúde para conversar sobre o assunto. O que for possível dentro daquela relação. Essa postura ativa do adulto é fundamental, pois a criança não vai perguntar para o adulto que não deu permissão. A curiosidade vai aparecer, mas a pergunta não será direcionada a esse adulto que não deu permissão.
3-Ainda há diferenças na forma como meninos e meninas são educados sexualmente? Ou mesmo na forma como eles iniciam a vida sexual?
Com certeza há diferenças e estamos numa fase de crescimento do endurecimento dos estereótipos de gênero, de menor educação sexual. Na forma como eles iniciam a vida sexual, ainda temos um comportamento muito mais permissivo com relação aos meninos e muito mais preocupados, se assim podemos dizer, com relação às meninas.
4- Dar um vibrador para uma adolescente pode ser um estímulo para a iniciação sexual precoce?
Depende do que você entende como iniciação sexual. Se a gente entende que a iniciação sexual tem a ver com sexo penetrativo com parceria, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Se a gente entende que pode ser sim dar permissão para que ela possa se explorar, aí sim. E aí não é precoce, porque um adolescente que se explora não é iniciação sexual precoce. Inclusive o termo precoce eu sempre acho que é dúbio, porque precoce pra quem? Em que sentido? A adolescência vai dos 13 até 18 anos. Mas em que momento seria precoce? Dar um vibrador pode ser uma forma de ativamente comunicar que a masturbação naquela família é ok, que o prazer sexual é bem vindo, que se pode falar daquele assunto. Isso é um estímulo ao início da masturbação? Ou pelo menos é uma retirada às camadas de proibição? Mas eu acredito que ninguém comece a se masturbar porque a mãe mandou. Provavelmente a pessoa já devia estar se masturbando antes.
5- Quem faz uso de vibradores pode se tornar um viciado e ter dificuldade para encontrar prazer no relacionamento com outra pessoa?
Não tem nenhuma evidência na literatura que sustente essa hipótese. O que sabemos é justamente o contrário. O uso dos vibradores enquanto facilitadores do autoconhecimento e da capacidade de ter prazer sozinha é um fator de proteção para diversos aspectos da função sexual como desejo, taxa de orgasmo, satisfação sexual, frequência de sexo com outra pessoa.
6- A partir de que momento o erotismo deve entrar na vida das pessoas?
O erotismo não entra na vida de ninguém. Ele é mais uma das possibilidades de expressão da capacidade imaginativa que se desenvolve na primeira infância. O erotismo é o cérebro processando informações sexuais e vai aparecer automaticamente a partir do momento em que as crianças começam a ter função sexual no final da infância e início da puberdade. O erotismo se desenvolve sozinho. Ele não é estimulado de fora para dentro. O aparecimento do erotismo é responsável na verdade pelo aumento da curiosidade por temas sexuais. O erotismo não é uma coisa que a criança é inocente e de repente ela é atravessada pelo erotismo. Não existe isso.
7- É interessante como essa história de Cláudia Raia trouxe uma preocupação com a sexualização precoce das crianças e adolescentes e o mesmo não ocorre com as músicas e dancinhas com conteúdos altamente eróticos que estão em todas as mídias e festas familiares. O que você pensa sobre isso?
Músicas com conteúdo que estimulam a sexualização todo mundo dança e acha normal na frente da criança, mas a mãe conversar com a filha sobre prazer sexual e uso do vibrador é super tabu.
Quando temos uma fala mais direta de permissão do prazer sexual de mulheres ainda é tabu, de meninas adolescentes mais tabu ainda.
8-Masturbação ainda é um tabu? Pode ser algo saudável? E qual seria a sua função nas nossas vidas?
Tem sido cada vez mais tabu, pois estamos vivendo um momento de crescimento de discursos de sexo negativos. É unanimidade na literatura que a masturbação é saudável, é fator de proteção. Ela é parte de um desenvolvimento sexual saudável, o que não quer dizer que todo mundo é obrigado a se masturbar. Gosto de dizer que é como comer vegetais. É sabido e notório que as pessoas devem comer vegetais, mas se a pessoa não quer comer vegetais, ninguém obriga. Você pode tomar um suplemento, você pode ir por outra via, mas que a masturbação é uma via saudável, isso é fato.
9- Você teria algumas dicas para os pais que têm tanta dificuldade para falar de sexualidade com seus filhos?
Busquem orientação com um profissional especializado. Busquem orientação. Não façam isso sozinhos. Não fiquem procurando na internet. Procurem alguém que sabe e vai te ajudar a pensar e direcionar o caso específico para o seu filho. Quando pensamos em educação sexual do seu filho é uma educação sexual que precisa fazer sentido no seu contexto, dentro dos valores da sua família. Tem que ser algo que seja possível para esses pais e por isso precisa ser pensada individualmente. Não adianta pensar em regrinhas gerais porque elas raramente resolvem um caso individual.

Drª Aline Sardinha é autora de livros sobre sexualidade e também do Baralho da Sexualidade, que pode tanto ser usado por profissionais como por pais que têm dificuldade para trazerem o assunto para seus filhos adolescentes.

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